O Ataque Vem do Polo / The Giant Claw (1957)

Olha, eu já vi muitas coisas esquisitas em minha sala de cirurgias. Cistos do tamanho de bolas de futebol, cortes de serra-elétrica feitos por serial killers e outros ferimentos que pareciam trabalho dos melhores maquiadores de Hollywood. Mas, em meus anos e anos de experiência, nunca vi nada parecido com a criatura de “O Ataque Vem do Polo”.

A ave gigante em questão é a antagonista desse longa de 1957 e ataca aviões, prédios e pessoas com garras, asas e um bico poderoso. Mas a arma secreta é mesmo uma espécie de escudo antimatéria, já que o bicho veio do espaço (e sabe-se lá de onde tiraram o “polo” no nome em português), de uma galáxia distante que é formada por essa composição. Com essa energia emanada, ele não só fica imune a tiros e mísseis como escapa da detecção de radares.

Repare: a cabeça do monstro não aparece no pôster.

Já o protagonista é Mitch McAfee, um engenheiro que faz bicos como piloto de testes para o exército (ou algo assim). Acompanhando da matemática e par romântico Dra. Sally Caldwell e do general Considine, são eles os primeiros a investigar um misterioso vulto que assusta pilotos e derruba aviões.

“Tão grande quanto um navio de batalha” (ele é chamado assim umas trinta vezes durante toda a história, sem exageros), esse é talvez um dos mais temíveis monstros da fantasia. Mas o que é a tal criatura? Você está mesmo pronto para confrontá-la? Bom, não diga que eu não avisei…

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA. Desculpem, mas não dá para resistir.

Que diabos é isso? Precisamos de um biólogo na mansão – e com urgência!

O monstro original seria feito por Ray Harryhausen, mestre do stop-motion e outros efeitos especiais, homem por trás de criaturas de clássicos como “Fúria de Titãs” (1981) e “Jasão e os Argonautas” (1963), entre muitos outros. Devido aos cortes no orçamento, ele foi descartado e substituído da pior maneira possível pelo produtor: uma fábrica barata de miniaturas na Cidade no México criou a marionete, resultando em um dos monstros mais patéticos da história do cinema. As melhores cenas com efeitos especiais foram “emprestadas” de “A Invasão dos Discos Voadores” (1956), este sim com um trabalho de Harryhausen.

Ai, que susto!

O problema do filme, fora o urubu retardado, de topete e dentes tortos que serve de vilão, é o ritmo: já fiz cirurgias de extrema dificuldade em menor tempo e com mais emoção. Os vinte minutos finais, com a criatura aparecendo constantemente e chegando à cidade grande, são muito bons. Mas a demora na resolução do conflito pode irritar quem não tem tanta paciência com filmes mais antigos.

Mas não dá só para tacar pedras no pobre passarinho. O estilo profissional do filme, com uma narração galhofa que tenta dar um ar documental e as explicações sobre o funcionamento de radares e da própria ave (você sabe o que é um átomo exótico? O filme explica!), consegue divertir bastante. Acredite: eles tentam levar tudo a sério.

“Não. Simplesmente não tem explicação para o bicho sair tão feio assim!”

O filme é cercado de lendas – como o paradeiro da marionete da ave, que é desconhecido. Se achada, ela vale alguns milhões para colecionadores, fácil. Outro exemplo? Como nenhuma das cenas da criatura foi filmada junto com os atores, ninguém do elenco ou da equipe de apoio viu o boneco até a estreia do filme, já que o rosto do bicho não aparecia nem no cartaz.

Ainda assim, todos acreditaram que o trabalho seria bem feito. Reza a lenda que, durante a projeção, o bicho apareceu – e o astro do filme, Jeff Morrow, conta que a plateia ria descaradamente a cada cena com o monstro. Não vou culpá-los.

BB½